Tuesday, September 17, 2013

A máscara de si mesma

   

       Bring me to life invadiu meus ouvidos e anunciou o início de um novo dia. Fiquei deitada e deixei o alarme do celular na função "soneca". Acordar era sempre um ato que exigia esforço sobrehumano... Porém, depois vinte minutos com a canção tocando em intervalos regulares de cinco, finalmente me levantei. Andei com passos arrastados até o banheiro, bem ao lado do quarto, e escovei os dentes. 
     O espelho me lembrou mais uma vez que eu não era quem gostaria de ser. Quando criança, sonhava com um destino marcante. Sempre quis deixar um legado no mundo, mas cada dia que passava me deixava mais longe desse objetivo. 
       Com quase vinte e cinco anos, eu já tinha sido frustrada em muitas tentativas de carreira, como desenhista, música, pintora, arquiteta... Eu tinha tentado muitas coisas mesmo, menos medicina. Alguém sem coragem para enfiar uma minhoca em um azol nunca seria uma boa médica... Essa era a única coisa de que tinha certeza na minha vida... Antes de sair do cubículo para onde havia me mudado no último ano, por ser mais perto da faculdade, dei ração para meu gato. Ele era um herói por conseguir conviver comigo. 
     Da portaria, percebi que chovia torrencialmente e aí meu humor afundou de vez, igual ao Titanic. Chuva quando tinha que sair me deixava com raiva...  enfim... trinta minutos depois, cheguei ao meu trabalho. Era emocionante ser atendente de lojas de roupas. A parte mais legal era que você sempre fazia as pessoas se sentirem bem, mas a pior era que geralmente nunca era verdade. O que eu podia fazer? Dependia de comissão, ora... Faculdade é cara! 
      Todos os meus dias eram sempre iguais, mas hoje alguém me disse algo diferente. "Seu cabelo é igual ao da Emi Lee..." Eu nem sabia quem era a figura a que me comparavam e quando procurei na internet, descobri que era uma rockstar... 
     Foi aí que me dei conta de que, aos vinte e cinco anos, ainda não sabia quem era. Toda a minha vida tinha sido uma imitação. Eu costumava copiar personagens que achava legal nas séries de TV. Copiava tudo o que eu podia: cabelo, roupas, falas... Só não era louca ao ponto de modificar meu físico por meio de cirurgias, como haviam feito algumas pessoas que tinham suas imagens rodando nas mídias. Já imitei a Xena, a Blosson, a Rachel (do Friends), a Lois (de Smallville)... por aí vai. Agora eu havia assumido o look de uma cantora que gostava. Será que eu sou maluca? Os médicos achavam que não, porque nunca me pediram para ver psicólogos nem nada do gênero...
     Imitar celebridades é legal quando você quer aprender uma língua nova, por exemplo. Porque então vai se esforçar para falar tão bem quanto o objeto da cópia. Todavia, há um lado frustrante nessa história... Quando eu queria ser como a Xena, ficava sempre tentando fazer o que ela fazia. Não tinha como... Eu até mandei fazer uma espada. Paguei dois mil reais, dinheiro suado que meus pais haviam depositado numa poupança para mim. Queriam guardar para a faculdade... Assim que souberam que torrei tudo numa arma branca, quase me sentenciaram de morte. Os pais podem dizer coisas bem cruéis quando querem...
     Bem, eu tinha uma espada, mas não sabia o que fazer com ela. Daí pensei: "É só tentar reproduzir os movimentos da Xena". Não podia ser difícil. Beleza... Só que tem muita diferença entre você enfrentar um inimigo imaginário e um real. Aprendi isso quando me meti a enfrentar os ladrões que tentaram assaltar a casa dos meus pais. O tiro que levei me deixou mais de uma semana traumatizada... Por pouco não morri. Depois dessa tentativa frustrada de ser heroina, deixei isso para traz. Aposentei minha espada... Ainda tenho ela, mas se tornou um simples adorno de parede. 
     Tendo deixado a Princesa Guerreira de lado, assumi a personalidade de uma garota de dezesseis anos: a Blosson. Era uma vida simples, só que não fez a minha cabeça por muito tempo. Comum de mais. 
     Lois e Rachel também não renderam. Daí aprendi que não gostava do trivial, pois a minha vida já era desse jeito. Eu queria mais... Comecei a ver uma série de bandas e cantores, enfim, muitos músicos, que apreciam esporadicamente nos programas de televisão que eu assistia. É minha vida social era maravilhosa... Foi nessa época que tomei uma decisão que era realmente minha, mas demorei a perceber. Comprei um violão. Queria comprar a loja inteira, mas tinha exatos cento e cinquenta reais... 
     Meus pais já estavam cansados de gastar seu rico dinheirinho comigo. Também pudera. Eu nunca dava retorno. 
     Aprendi o que pude sobre como tocar e comecei a compor minhas músicas com apenas três acordes ré, lá e sol. Aqueles que usavam pestana eu evitava, porque os dedos doíam pra caramba. Nesse momento da minha vida, o rock começava a despontar no horizonte de portas que se fechavam na minha cara. Ouvi uma canção chamada "Me odeie" e logo descobri que era de uma banda chamada "Reação em cadeia"... Confesso que eu queria ter feito aquela música. Comecei a prestar mais atenção no cenário musical e conheci muita coisa legal, mas minha habilidade de copiar estilos não encontrava mais um modelo. Era difícil para uma garota espelhar-se em homens... Outra coisa que me deixava desanimada era o soar de minhas canções. Eu ouvia rock, só que tudo o que saía de mim, acabava soando com sertanejo... Haja paciência. 
     Certo dia peguei uma cerveja. Nunca tinha bebido e tampouco queria. Mas os grandes ídolos do rock bebiam. Fiz uma infeliz associação: boas letras de rock com embriaguês. Não me lembro do que aconteceu direito. Sei que tomei três latinhas e já estava rindo sozinha. Talvez fosse porque não conseguia nem segurar uma caneta e menos ainda enxergar as linhas retas da folha do caderno. O que lembro foi de ter acordado com sinos na minha cabeça, às três horas da tarde do dia seguinte. Levei aquela bronca e, por mim mesma, entendi que beber não ajuda a criar músicas de rock. Drogas? Não, nem passaram pela minha cabeça. Uma bebidinha ainda vá, mas isso é suicídio e eu gostava da minha vida, mesmo que seguisse usando máscaras. 
     Uma vez que comecei a ouvir rock, todos os outros estilos tornaram-se ofensa para meus exigentes ouvidos. Passei a criticar quem ouvia gêneros diferentes. Isso me custou as poucas amigas que tinha. Elas eram do tipo que vai em baladas, se maquiam até alma e mostram mais do que deveriam para serem foco das atenções. Fiquei bem sozinha e, a partir dali, comecei a usar meu visual para dar as pessoas a imagem que eu queria que vissem: uma rockeira. Esse foi meu primeiro passo rumo a mim mesma. 
     Rock não era apenas um estilo musical que surgiu lá pelos anos cinquenta, mas uma ideologia de vida. Dele fazem parte artistas inteligentíssimos que, para protestar, usaram de artifícios para que suas letras não fossem censuradas antes de chegarem ao pública na época da ditadura militar no Brasil. Além do talento para tocar esse som grudento, havia toda uma preparação na imagem dos artistas. E depois olhar várias imagens de cantoras, descobri essa Emi Lee, vocal do Evanescence. Cabelo preto, pele clara, bela voz... Adotei seu visual. Era alguém que eu admirava e que não andava pelada por aí. Comecei a ouvir as músicas que ela cantava e a tentar ser igual. A maioria das pessoas realmente me via da forma como eu queria. Isso me satisfazia... até o dia em que aquela mulher falou do meu cabelo... 
     Quando eu cheguei em casa, parei diante do espelho. Eu era quase uma sócia da vocal do Evanescence. Então, perguntei a mim mesma: "Quem é você?"
      - Eu sou diferente do resto. 
     Passei a vida usando máscaras. Agindo como outros. Sufocando minha essência. Porém, não ia mais fazer aquilo...
     Hoje uso minha própria máscara. Despejo minhas próprias músicas por aí.  E tantos buscam ser como eu. No entanto, autenticidade é o que faz alguém especial. Quem não tem, não deixa uma marca sua no mundo, apenas anda na sombra dos outros.